Terapia, espiritualidade e religião: cuidados que terapeutas devem ter!

Terapia, espiritualidade e religião: quais são os limites dentro de um atendimento terapêutico? Vamos entender neste artigo!
A prática terapêutica exige não apenas um profundo conhecimento técnico, mas também uma postura ética e empática, especialmente ao lidar com questões tão pessoais como a espiritualidade e a religião. Muitos pacientes trazem consigo crenças que são fundamentais para o seu bem-estar e sua visão de mundo.
Para o psicólogo ou terapeuta complementar, é essencial compreender como essas crenças influenciam o processo terapêutico, respeitar as práticas espirituais de cada um e utilizar isso a favor do tratamento.
Índice
- Religião x espiritualidade: quais são as diferenças?
- O Código de Ética e a liberdade religiosa no atendimento terapêutico
- Meu cliente possui uma crença religiosa muito forte, o que fazer?
- Como realizar uma sessão de terapia respeitando as crenças religiosas e espirituais do paciente
- 1. Autoconhecimento do Terapeuta: atente-se às suas próprias crenças
- 2. Evitar julgamentos: Validação das crenças do paciente
- 3. Terapia, espiritualidade e religião budista
- 4. Terapia, espiritualidade e religião Testemunhas de Jeová
- 5. Uso de técnicas holísticas de forma sensível
- 6. Uso de jargões
- 7. Principais recomendações
- 8. Não recomende práticas religiosas
Religião x espiritualidade: quais são as diferenças?
Antes de falar sobre a integração entre terapia e religião, é importante entender a diferença entre religião e espiritualidade.
- Religião é um sistema organizado de crenças, dogmas, rituais e práticas compartilhadas por uma comunidade. Ela é uma forma estruturada de buscar sentido, orientação e conexão com o divino.
- Espiritualidade é mais pessoal e íntima, referindo-se à busca individual por sentido na vida, sem necessariamente estar ligada a uma religião formal. A espiritualidade trata da conexão com algo maior e pode ajudar no enfrentamento de desafios emocionais e existenciais.
É fundamental que o terapeuta reconheça e valorize a diversidade de crenças de seus pacientes, promovendo um espaço terapêutico onde a fé e a espiritualidade possam ser integradas ao processo de autoconhecimento, sem imposições ou tentativas de alterar essas crenças.
A relação entre terapia e espiritualidade
Muitos terapeutas se perguntam como as práticas terapêuticas podem coexistir com as crenças espirituais ou religiosas dos pacientes.
A resposta é simples: com respeito, escuta ativa e flexibilidade.
A terapia e psicologia contemporânea valorizam o papel da espiritualidade na saúde mental e reconhecem que muitas pessoas encontram conforto e forças em suas crenças.
O Código de Ética e a liberdade religiosa no atendimento terapêutico
O Código de Ética Profissional dos Psicólogos e as diretrizes de terapias complementares exigem que os profissionais respeitem as crenças, valores e ideologias dos pacientes.
De acordo com as orientações do Conselho Federal de Psicologia, a terapia não deve ser utilizada para mudar a fé religiosa de alguém, mas sim para proporcionar suporte na resolução de questões emocionais, existenciais e comportamentais, respeitando o sistema de crenças do paciente.
“Não existe oposição entre Psicologia e religiosidade, pelo contrário, a Psicologia é uma ciência que reconhece que a religiosidade e a fé estão presentes na cultura e participam na constituição da dimensão subjetiva de cada um de nós. A relação dos indivíduos com o ‘sagrado’ pode ser analisada pela(o) psicóloga(o), nunca imposto por ela(e) às pessoas com as quais trabalha.” — Nota pública do Conselho Federal de Psicologia de esclarecimento à sociedade e às(os) psicólogas(os) sobre Psicologia e religiosidade no exercício profissional.
Além disso, terapias complementares também devem ser conduzidas com ética e respeito, sem tentativa de promover qualquer tipo de doutrina religiosa ou espiritual. Isso garante que os pacientes se sintam seguros e compreendidos, sem que suas crenças sejam desafiadas ou distorcidas.
Para o CFP, se as(os) psicólogas(os) exercerem a profissão declarando suas crenças religiosas e as impondo ao seu público, estarão desrespeitando e ferindo o direito constitucional de liberdade de consciência e de crença.
O Código de Ética Profissional das(os) Psicólogas(os) cita nos dois primeiros princípios fundamentais a necessidade de respeito à liberdade e à eliminação de quaisquer formas de discriminação, e no artigo 2º veda à(o) psicóloga(o) a indução não só de convicções religiosas, mas também de convicções filosóficas, morais, ideológicas e de orientação sexual, compreendendo a delicadeza e complexidade que o tema merece:
Princípios fundamentais
I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Art. 2º – À(o) psicóloga(o) é vedado:
b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais.
Meu cliente possui uma crença religiosa muito forte, o que fazer?
Ao atender pacientes com crenças espirituais ou religiosas fortes, alguns pontos importantes devem ser considerados:
- Ouça com empatia e sem julgamentos: O terapeuta deve ser um espaço seguro onde o paciente se sinta à vontade para compartilhar suas crenças sem medo de julgamento.
- Não imponha crenças pessoais: O terapeuta não deve tentar mudar ou impor suas próprias crenças. O foco deve ser sempre o bem-estar do paciente e a construção de estratégias que respeitem sua visão de mundo.
- Aborde o tema de forma sensível: Não force o paciente a discutir a espiritualidade se ele não se sentir à vontade.
Como realizar uma sessão de terapia respeitando as crenças religiosas e espirituais do paciente
Respeitar a religião e as crenças espirituais do paciente é um princípio fundamental para que o terapeuta possa proporcionar um ambiente de confiança, acolhimento e respeito.
Cada indivíduo traz consigo um sistema único de crenças que, quando bem compreendido e respeitado pelo terapeuta, pode ser uma ferramenta no processo terapêutico. Aqui vão algumas dicas:
1. Autoconhecimento do Terapeuta: atente-se às suas próprias crenças
É fundamental que o terapeuta esteja ciente de suas próprias crenças, pois isso pode influenciar sua prática terapêutica.
Por exemplo, muitos terapeutas podem ter uma visão mais holística e acreditar em “energias” ou “forças universais”, mas é importante refletir se essas crenças podem ser alinhadas com as convicções do paciente.
O terapeuta deve perceber se suas crenças pessoais podem interferir na forma como conduzirá a terapia.
Por exemplo: Pode ser que um terapeuta a nível pessoal acredito em energias. Por outro lado, na prática profissional, não pode levar isso no consultório. Seu paciente pode ser ateu e, caso o terapeuta imponha sua opinião, o paciente pode sentir deslocamento na sessão, ou com sua visão de mundo desrespeitada.
2. Evitar julgamentos: Validação das crenças do paciente
Ao ouvir o paciente, o terapeuta deve ser cuidadoso com suas reações, não fazendo julgamentos sobre crenças que diferem das suas.
Mesmo que o terapeuta não compartilhe das mesmas crenças, deve validar a importância que essas crenças têm para o paciente.
Por exemplo, se um paciente acredita que suas dificuldades estão ligadas a uma provação divina, o terapeuta pode trabalhar com isso de forma empática, trazendo reflexões, sem tentar mudar a visão do paciente.
Exemplo: Quando um paciente evangélico fala sobre uma “provação divina”, o terapeuta pode perguntar como ele tem lidado com isso, em vez de sugerir que ele “não deveria pensar dessa forma” ou “isso não é real”.
3. Terapia, espiritualidade e religião budista
Um paciente que segue a filosofia budista ou acredita em uma conexão com a natureza pode usar termos como “energias” ou “fluxos espirituais”.
- Como lidar: O terapeuta pode adotar uma postura aberta e perguntar de que maneira esses conceitos são importantes para o paciente, sem desconsiderá-los.
- Por exemplo: “Como você sente que sua prática espiritual pode ajudá-lo neste momento da sua vida?” A ideia é trabalhar com o que o paciente traz, sem desconsiderar suas crenças espirituais.
4. Terapia, espiritualidade e religião Testemunhas de Jeová
Cenário: Um paciente Testemunha de Jeová pode enfrentar um dilema diário relacionado a práticas religiosas que influenciam sua vida cotidiana, como a recusa a celebrar festas comemorativas, como aniversários ou Natal, que são proibidas por sua fé.
Esse paciente pode sentir-se isolado ou em desconforto ao lidar com amigos e familiares que celebram essas datas, criando um conflito interno entre seguir suas crenças religiosas e manter os relacionamentos com pessoas próximas.
- Como lidar: O terapeuta deve respeitar as crenças do paciente e trabalhar no processo de compreensão dos impactos emocionais e sociais dessas escolhas. A ênfase deve estar na exploração dos sentimentos e como ele se relaciona com isso e nunca desmerecendo ou julgando suas crenças.
5. Uso de técnicas holísticas de forma sensível
Para terapeutas complementares com uma visão mais holística, o foco está em integrar o corpo e mente, mas sempre respeitando as escolhas do cliente.
Algumas técnicas holísticas, como terapias energéticas, meditações ou hipnose, podem ser mal interpretadas por pacientes com crenças mais rígidas ou tradicionais. Portanto, é importante apresentar essas técnicas de maneira sensível, destacando os benefícios de uma abordagem integrativa, sem forçar nenhuma prática.
Antes de aplicar qualquer técnica holística, informe o paciente sobre o processo e o que pode ser esperado, permitindo que ele tenha a opção de aceitar ou recusar a prática com base em suas crenças.
- Por exemplo: “Gostaria de sugerir uma técnica de relaxamento que envolve meditação e visualização. Isso pode ajudá-lo a aliviar o estresse. Você se sentiria confortável com isso?”
6. Uso de jargões
É importante que, como terapeuta, você evite o uso de expressões de cunho religioso que possam sobrepor suas crenças pessoais ao espaço terapêutico, como “Fique com Deus”, “Que Deus te abençoe”, “Que os anjos te protejam”, “Que o Senhor ilumine seu caminho”, ou “Vou orar por você”, no caso de pacientes cristãos; “Axé”, “Que a luz de Oxalá te guie”, “Saravá” ou outros termos do Candomblé e Umbanda, entre outros.
Esses termos podem ser usados em situações de amizade ou em ambientes mais informais, mas no atendimento terapêutico, deve-sel manter uma postura neutra e centrada no paciente, respeitando suas crenças.
Essas expressões podem ser vistas como imposição de sua visão religiosa ao paciente, o que vai contra as orientações éticas da profissão.
❌ Não utilize frases como “Você precisa ter fé”, “Seu destino está nas mãos de Deus”.
✅ Pergunte ao paciente o que ele acredita que possa ajudá-lo a superar sua situação.
7. Principais recomendações
O terapeuta não deve tentar influenciar, modificar ou impor suas crenças religiosas ou espirituais sobre o paciente.
Imposição de qualquer tipo de crença, seja religiosa, filosófica ou moral, é antiético e vai contra o Código de Ética da profissão e as diretrizes da nossa plataforma.
8. Não recomende práticas religiosas
Se o paciente não sugerir, evite recomendar orações, rituais ou qualquer prática religiosa como solução para problemas terapêuticos.
A terapia deve ser conduzida com uma abordagem neutra, onde as crenças religiosas e espirituais do paciente são acolhidas e respeitadas, sem interferência.
O terapeuta deve ter clareza sobre suas próprias crenças, mas deve manter essas crenças separadas do processo terapêutico, a fim de evitar a projeção de suas opiniões pessoais.
Os terapeutas devem ser capacitados para lidar com questões interseccionais de religião, espiritualidade e identidade cultural, adaptando suas abordagens para considerar o contexto religioso e cultural do paciente.
O terapeuta tem o papel de criar um espaço seguro, onde o paciente possa explorar suas crenças sem medo de julgamento ou imposição.
O terapeuta deve ser um facilitador da reflexão e do autoconhecimento, sem julgamentos ou tentativas de mudar a visão de mundo do paciente.
Cada crença é única e deve ser tratada com a devida sensibilidade e respeito.
O terapeuta, portanto, precisa manter uma postura ética, sensível e aberta para que a terapia seja eficaz, respeitando a diversidade de crenças e ajudando o paciente a encontrar formas saudáveis de viver de acordo com seus valores.
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